INDIVISÍVEL

O compositor e ensaísta Zé Miguel Wisnik lança o álbum duplo Indivisível, quarto disco de sua carreira. Produzido por Alê Siqueira, que assina a produção de discos de nomes como Marisa Monte, Bebel Gilberto e Omara Portuondo, o trabalho traz 25 músicas, todas cantadas por Wisnik, entre faixas autorais, parcerias e versões e chega às lojas em junho pelo selo Circus.

Cada um dos discos do duplo Indivisível é dedicado a um instrumento principal. O primeiro álbum conta com o piano de Zé Miguel Wisnik para construir o clima mais denso dos arranjos das primeiras 13 músicas do trabalho. Já o segundo elege a leveza e a precisão do violão de Arthur Nestrovski que desenha as 12 canções seguintes.

Parcerias com nomes como Chico Buarque, Jorge Mautner, Marcelo Jeneci, Guinga, Alice Ruiz, Luiz Tatit, Paulo Neves e Zé Tatit pontuam todo o trabalho. Inaugurando as colaborações estreladas do disco, a faixa-título “Indivisível”, musicada por Wisnik, apresenta letra do designer André Stolarski, autor de um poema baseado no ensaio de Wisnik “Iluminações Profanas”, que traz um jogo com as palavras invisível, indizível e indivisível. Para reforçar a idéia da indivisibilidade, o projeto gráfico, de Elaine Ramos, traz as capas dos dois discos, ilustradas por grafismos com as iniciais do compositor “Z”, “M” e “W”, unidas por um imã invisível, que metaforicamente também agrupa todas as faixas dos dois momentos pontuados no registro.

Chico Buarque, em prática nada usual em sua trajetória musical, assina “Embebedado” e entoa ao lado de Wisnik a letra composta pelo parceiro. Gravada por Gal Costa no disco “Hoje”, a canção foi um pedido da cantora a Chico, que envolvido, na ocasião, no lançamento de um de seus romances enviou uma melodia para que Wisnik letrasse. Tarefa árdua, quase inédita e impossível: Fazer uma letra para o absoluto letrista.

Marcelo Jeneci e Paulo Neves dividem com Wisnik a autoria da grandiosa “Feito Pra Acabar”, que deu nome ao elogiadíssimo disco de estreia do jovem compositor e multi-instrumentista paulista. Na sequência, o álbum apresenta a primeira melodia composta por Jeneci, “O Primeiro Fole”, que ganhou letra afetuosa de Wisnik. A música “fala do piano, que é o nosso instrumento, da sanfona, que é instrumento dele, e do lugar misterioso onde a gente vai buscar as palavras para as canções”, comenta Wisnik.

E é também ao parceiro da nova geração da música brasileira que Wisnik confia as teclas de seu piano na única faixa em que não toca no disco dedicado ao instrumento, “Canção Necessária”, parceria com Guinga. A música é fruto de um “fracasso” criativo, como define o próprio Wisnik. Guinga havia pedido ao compositor uma letra para outra melodia, “Canção Desnecessária”, que demorou tanto a chegar que acabou nas mãos de Mauro Aguiar, que assumiu a missão. Em um telefonema a Guinga, Wisnik encontrou o tema que tanto havia procurado, antes sem sucesso: “Não desista de mim!”. Convidado para cantar a canção que não compusera em um show de Guinga, Wisnik chegou então aos versos de “Canção Necessária”. Diante da bigamia musical de uma canção e seus dois parceiros o segundo autor pediu licença a Mauro Aguiar para que a “Canção Necessária” convivesse pacificamente ao lado da “Canção Desnecessária”. A resposta de Aguiar deu origem à letra de “Nossa Canção”, que inaugura a colaboração entre Wisnik e Aguiar. O disco traz ainda “Ilusão Real”, primeira parceria monogâmica com Guinga.

Integrante veterano do time de parceiros apresentados em Indivisível, Luiz Tatit destila seu humor sobre a melodia de inspiração sertaneja, intitulada “Tristeza do Zé”, composta por Wisnik. A dupla brinca com a “Tristeza do Jeca”, de Angelino de Oliveira, para desenvolver a história, um tanto autobiográfica, de Zé.

Engrossam o ilustre grupo de colaboradores dos discos Alice Ruiz, que “discute a relação” no tema amoroso “Dois em Um”, composto com o pianista ao pé do instrumento; Vadim Nikitin, em “Sem Fundos”, inspirada na figura do “pobre diabo” dostoievskiano; e Jorge Mautner, em “Tempo sem Tempo”, regravada ao violão.

Indivisível traz ainda um hino anti-homofobia composto com Ana Tatit e Zé Tatit. “Eva e Adão ou Marchinha da Família” foi a vencedora do concurso de marchinhas do Morro do Querosene e estabelece diálogo com outra faixa do disco dedicado ao violão, “Presente”, já gravada por Elza Soares em “Pérolas aos Poucos” e por Zélia Duncan em “Eu Me Transformo em Outras”.

A “Serenata”, uma das versões em que Arthur Nestrovski traduziu peças de Schubert e Schumann para a canção brasileira, abre o disco de capa azul brilhante e encarte fosco, em que o violão de Arthur costura todas as faixas. O disco remete ao repertório e ao período e em que Wisnik e o violonista tocaram juntos em aulas-show por todo o Brasil, antes do parceiro assumir a diretoria artística da Osesp. Composta para o espetáculo de dança “Tudo que Gira Parece a Felicidade”, de Ivaldo Bertazzo, “Acalanto”, música de Nestrovski, ganhou letra de Wisnik posteriormente ao espetáculo.

Além das autorais “A Serpente” (feita para uma montagem da peça homônima de Nelson Rodrigues), “Presente”, “Errei com Você”, “Sócrates Brasileiro” (samba exaltação sobre a grande figura futebolista, já gravado por Ná Ozzeti em seu primeiro disco), “Fio de Areia”, “Cacilda” (feita especialmente para o espetáculo Cacilda!, de Zé Celso Martinez Correa no Teatro Oficina, e gravada por Maria Bethania) e “Se Meu Mundo Cair”, regravada ao piano, Wisnik também traz para seu “Indivisível” canções sobre poemas.

“Os ilhéus”, sobre um soneto de Antonio Cícero que faz parte de “A Cidade e os Livros” foi musicada com inspiração em Lulu Santos, já que Cícero é ao mesmo tempo poeta, filósofo e autor de hits com Marina Lima e Lulu. O tom apocalíptico das palavras ganhou estranha atualidade com o tsunami no Japão.

Música composta para o espantoso poema em ecos de Gregório de Matos, poeta barroco baiano do século XVII, “Mortal Loucura”, é originalmente trilha do espetáculo “Onqotô”, do Grupo Corpo, em parceria com Caetano Veloso. Inicialmente recebeu um tratamento mais extenso e coreográfico e no disco ganhou formato mais próximo da canção.

“Tenho dó das estrelas”, uma quase-morna sobre poema de Fernando Pessoa; “Eu vi”, versão para a canção de Henri Salvador, do disco “Chambre Avec Vue”; e “Anoitecer”, sobre poema de Carlos Drummond de Andrade, completam a lista de poemas musicados que permeiam e unem as 25 faixas de Indivisível.

 

Produzido por Alê Siqueira

Produção executiva: Sergia Percassi

Arranjos: Zé Miguel Wisnik, Arthur Nestrovski, Marcio Arantes, Marcelo Jeneci, Swami Jr, Sergio Reze, Alê Siqueira

Gravação e mixagem: Carlos (Cacá) Lima – estúdio YB (SP)

Gravações adicionais: Ricardo Moska e Maurício Gargel – estúdio Na Cena (SP); estúdio Monoaural (RJ); Paulo Lepetit no estúdio Outra Margem (SP)

Masterização: Carlos Freitas – estúdio Classic Master

Projeto gráfico: Elaine Ramos

Produção gráfica: Letícia Mendes