IMPRENSA

29fev2012 Jornal Gazeta do Povo, Curitiba [crítica, por Cristiano Castilho]

26 de novembro 2011 Jornal O Globo, Rio de Janeiro [texto, por Zé Miguel Wisnik]

LEVEZA PROFUNDA
Embora já tenha entrado para a história enquanto mito, muitos não entendem o porquê da importância desmesurada atribuída por músicos e críticos a João Gilberto. O documentário radiofônico “Tim tim por tim tim – A música de João Gilberto”, realizado pela Radio Batuta e acessável através do site do Instituto Moreira Salles, é a mais completa oportunidade de esclarecer essa dúvida, onde ela exista. É claro que não adianta explicar a quem não se dispõe a ouvir, e, quando é assim, também não adianta escutar nenhum desses sete programas. A escuta musical e a capacidade de fazer silêncio interno são dois bens raros, hoje, e essenciais, no caso. Mas, nas suas mais de três horas de duração, o documentário faz de fato, tim tim por tim tim, uma radiografia largamente exemplificada da palavra cantada com violão, tal como foi inventada por João Gilberto.

O roteiro é de Paulo da Costa e Silva, acompanhado por Francisco Bosco, muitos são os especialistas convidados, muitas as músicas ouvidas, e muitos os momentos de zoom sonoro sobre os procedimentos rítmicos, melódicos, harmônicos, prosódicos, timbrísticos, sobre a técnica instrumental de João Gilberto, sobre a poética deste que fez da canção uma obra de arte total. Embora eu também tenha participado dando entrevista, e conheça o trabalho de vários dos críticos envolvidos, o efeito de conjunto soa novo mesmo para quem já está imbuído daquilo que a série tem a nos dizer.

Equívocos tradicionais como o que vincula a matriz do canto de João Gilberto ao de Mário Reis são desfeitos conceitual e sonoramente. Embora ambos adotem uma voz com pouco volume, as sílabas, na dicção vocal de Mário Reis, são curtas, precisas e separadas, como golpes de palheta num instrumento de sopro. As de João se alongam, ligadas, e têm como horizonte o arco inteiro da frase melódica, que ele sustenta muitas vezes sem interrupção com um fôlego respiratório incomum, o que fica claríssimo nos exemplos apresentados. Nesse sentido, a sua ligação originária é muito mais com Orlando Silva, que João tomava como modelo no início da carreira, do que com Mário Reis.

Mantendo muito vivo o espírito da frase melódica, e cantando com a aparente descontração de quem conversa, João Gilberto não afoga as palavras em ornamentos vocais – elas ficam bem à tona da música, como é sabido. Ao mesmo tempo, elas se tornam matéria musical em direção oposta, porque ele explora as possibilidades percussivas das consoantes oclusivas e das sibilantes interligadas, dilata e contrai as vogais, usa o som da própria respiração como apoio rítmico, deita e rola nas potências fônicas da língua, fazendo essas sutilezas todas inseparáveis da música.

Em seu depoimento, Lorenzo Mammì diz que, ao cantar “Estate”, João faz uma espécie de caleidoscópio de todos os sotaques da língua italiana, como se a dissecasse “pedacinho por pedacinho”, cada consoante, cada vogal, cada sílaba, e a reconstituísse ao modo da apropriação estética que ele mesmo faz da língua portuguesa cantada no Brasil.
Sobre o violão, ficamos sabendo que João chama a nota mais grave tocada com o polegar da mão direita, à maneira da função do surdo no samba, de “o garoto”, e chama carinhosamente as notas mais agudas do acorde, tocadas com o indicador, o médio e o anular da mesma mão, de “as meninas”. Segundo Walter Garcia, “o garoto” se comporta dando apoio regular e previsível ao tempo, como se fosse um surdo “esfriado” pela sua regularidade, enquanto “as meninas”, correspondentes ao tamborim e ao cavaquinho, se deslocam pelos contratempos mais surpreendentes. A voz ocupa, então, os espaços deixados estrategicamente vazios pelo violão, como se ela entrasse por eles fazendo parte da dança flutuante dos acordes.

A relação entre a voz e o instrumento é toda feita de interações sutis onde os dois planos se encontram e desencontram num fraseado aéreo, flutuante, suspenso, e onde as noções de tempo forte e tempo fraco, de tensão e repouso, de figura e fundo, são ambivalentes e oscilantes. O mais interessante ainda, no caso de “Tim tim por tim tim”, é que tudo isso fica audível em detalhe e em panorama, acompanhamos o modo como esse estilo se formou, e ouvimos claramente como palavra, música, voz, violão se tornaram, em João, uma coisa só, de complexidade e transparência únicas, sem deixar de ser a pura decantação de um gênero muito nosso conhecido, o samba.

Num texto já clássico, Lorenzo Mammì dizia que o jazz é “vontade de potência”, e a bossa nova, “promessa de felicidade”. Aqui ele desenvolve mais a ideia, dizendo que o jazz respira por todos os poros um tempo quantitativo, como sublimação criativa do trabalho industrial, correspondente à vocação produtivista da cultura norteamericana. A bossa nova, e o estilo de João Gilberto, poriam ênfase, segundo ele, sobre o não quantificável, sobre o ideal de um tempo improdutivo, aquele que se abre no momento em que não estamos fazendo nada. O mesmo Lorenzo já sugeriu, num outro texto que comentei aqui, que João Gilberto é a expressão de um momento que está entre a extraordinária abertura do pós guerra à uma arte de massas de alto nível e o consumismo desenfreado que se instalou depois. É nesse casulo que ele se esconde, é dali que ele protege o microcosmo espantoso que inventou.

Sabemos que as culturas produzem normalmente coisas leves e superficiais por um lado, e coisas profundas e pesadas por outro. O Brasil atual, além de superficial e leve, é muitas vezes pesado e superficial. João Gilberto está no ápice do nosso veio mais original, a leveza profunda.

24 de setembro 2011 Jornal O Globo, Segundo Caderno [crônica, por Arnaldo Bloch]

10 de setembro 2011 Jornal Público, Portugal [crônica, por Alexandra Lucas Coelho]

18 de agosto 2011 Estado de São Paulo [matéria crítica, por Lucas Nobile]

18 de julho 2011 Estado de Minas Gerais [matéria, por Ailton Magioli]

4 de julho 2011 Zé e Chico [nota por Mônica Bérgamo, blog Conteúdo Livre]